quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Do que nada se sabe











Buenos Aires é, usando as palavras de um amigo, "perversamente fuerte". Tudo pode passar muito rápido e prático, as pessoas que não te olham, não há tempo para olhares em meio a tanto o que fazer. Podes também ir ao extremo do contemplativo, ao ficar uma tarde toda só admirando rosas. Se vive de tudo em um só lugar. Num dia são rosas e tangos, n'outro já não sabes sob que teto estarás vivendo. Pouco se sabe de amanhã, há que viver as cores que te rodeiam...




La luna ignora que es tranquila y clara
Y ni siquiera sabe que es la luna;
La arena, que es la arena. No habrá una
Cosa que sepa que su forma es rara.
Las piezas de marfil son tan ajenas
Al abstracto ajedrez como la mano
Que las rige. Quizá el destino humano
De breves dichas y de largas penas
Es instrumento de otro. Lo ignoramos;
Darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda
Y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta
que soy? ¿Qué cumbre puede ser la meta?



A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?



De que nada se sabe

Jorge Luis Borges, "La Rosa Profunda"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Como reluce...


A chegada em Buenos Aires foi reluzente!

Era 5 e meia da manhã, o avião já descendo e a forma da cidade se delineando entre a luz e a escuridão. Eu e a Fran com aquela sensação estranha de estar começando a concretizar algo que estava muito abstrato até então e aquela cidade brilhando entre o azul e o amarelo. Logo me veio à cabeça, sem fazer uma relação consciente, uma letra de caracoles que começa "como reluce..."

http://www.youtube.com/watch?v=php5unnuf0I (link da música)

Tudo muito reluzente. Pegamos um ônibus até o hostel. Esperávamos uma velhinha fofa com um café pronto, na verdade era a unica certeza que tínhamos quando embarcamos no avião. No entanto, o que a gente encontrou foram três lances de escada e uma porta fechada. A velhinha fofa se transformou em uma filha da p*. Depois de muita revolta, fomos parar em outro hostel, sem velhinha fofa, mas com um brasileiro gente boa que nos ajudou a subir as malas.

Antes de chegar aqui eu tinha a ideia de que estar em um lugar tão grande e desconhecido me tiraria o chão. Chegando aqui, eu vejo que meu chão é formado de outras coisas. A segurança do conhecido é algo que conforta, mas não é o que me deixa de pé. Sinto que eu estou aqui, assim como estava lá, cercada de coisas incertas e todo o tempo vivendo o que nunca vivi. O que move é descobrir o que há de mim aqui.

Por enquanto Buenos Aires reluz, calienta ( e como!) e me faz caminhar.


Saludos Porteños!



Foto: Plaza San Martín